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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Gama


Guria, essa tua mão
delicada jamais tinha
de se apoiar em paredes
tão sujas, tão sujas, tão...
Esses teus braços esguios
deviam estar ao redor
de meu corpo e só meu corpo...
Diga que não adoras quando
me dás a mão e brinco com
teus dedos, dou leves tapas
em teu corpo que me aquece
as mãos, as pernas e o peito,
te enrubesces toda meiga
com meu suor sobre ti.

Menina, te quero tanto.
Quero que pares de olhar,
quero que perca-te em meu
colo e me deixe levar-te
novamente por caminhos
aqueles lindos e estranhos
que antes já cruzamos juntos.

Menina, sabes que minha
dedicação é limitada,
que meu corpo não te aguenta
como antes, mas mesmo assim,
meu desejo é te carregar
por todo lado, sujar-me
contigo, dançar contigo,
limpar teu corpo suado,
trocar tuas roupas sem cor,
dedilhar teus lindos braços,
perder-me completamente
em teus gritos e gemidos.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Cangaço


Está frio. Congelo sob o Sol
de trinta e cinco graus.
Meu sorriso racha no ar seco,
sinto falta de sorrisos sadios
desperdiçados sem razão
e destes sonhos de criança
que nunca compartilharei.
Ainda estou aqui, depois destes
segundos que são como eras,
cantando músicas fúnebres
sob a chuva que nunca cai.
Ainda estou no meio deste mar,
mar de areia, concreto e isolação,
rezando para que o vento...
Para a remota chance de
que ele te carregue até
um pouco mais perto.
Rezando para que ele traga
minha alma de volta ao corpo.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Embrulho


Embrulhei seu sorriso numa folha,
não numa folha enfeitada,
mas numa folha singela e pacata,
numa sulfite velha e amassada.

Bagagem nas costas, sai à rua
com um embrulho no bolso do paletó
e a ambiguidade referente a troca
que aperta com desdém meu peito.

E o pacote amassava mais a cada vez
que o apresentava a prostitutas
e executivos que se proliferavam
no meu horizonte atormentado.

Cada vez menos desejável,
desejei o envelope para mim,
como nunca antes. Desejei-o
dentro de mim, parte de mim.

Constrangido, vaguei por alamedas
e ruas mil, de havaianas e pantufas,
sem abrir o envelope que me sela
entre o céu e o asfalto quente do inverno.

E enquanto o alcool de meu sangue
é inflamado pelo calor do chão,
uma folha amassada em branco
me mantém vivo, medíocre.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Anil


Tenho um punhado de sonhos e minha eterna misantropia a combater. Alguns deles são toscos, pitorescos e infantis. Outros, são somente arquétipos de uma satisfação que nem mesmo sei se quero satisfazer. O grande problema, querida, é acordar todo dia e encarar post-its virtuais colorindo a janela e a parede do quarto com as notas de tudo que deveria ter sido feito - por mim.
Uma olhada rápida no espelho me faz perceber que sou perfeito, e um segundo a mais basta para esculpir olheiras fundas no mármore sujo de meu rosto, corroído pelo espírito em putrefação que mantém a estátua viva. Outro segundo desenha com esmero as linhas da idade que nunca vou ter, enquanto caricias infindas transformam minha superfície em pó.
Em vias congestionadas, entre o que poderia ser e o que jamais será, a realidade se constrói ao meu redor num piscar de olhos, estes que, cada vez que são fechados, retornam as imagens das obrigações de realizar sonhos. Meus sonhos são correntes que me prendem no cárcere de meu corpo. Minha vida é minha condicional. Alguém deve ser minha liberdade...

sábado, 7 de julho de 2012

Redenção


Que é que encontra meus olhos
neste entardecer nublado
que os faz brilhar em frágil
e calmo contentamento?
Que toque é esse, que de etéreo
parece-me inexistente,
que de perfeito se faz
tão grotesco e tenro incômodo?
Quero libertar minha alma,
encontrar-me entre as correntes
de teu cheiro e teu sorriso,
no cárcere de teu olhar
apodrecer através
de anos e anos e anos e anos.
E onde foi que te escondeste?
Minha terna redenção
esticou suas pequenas
asas, soltando as penas
que acariciam meu rosto
com angelical cuidado,
e partiu, sem deixar rastros.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Busca

Por mais que eu procurasse, até mesmo afoito e desesperado, sabia que tal busca era apenas uma desculpa para não deixar tudo ir pelos ares, somente algo em que pudesse me segurar. A desesperança colaborava com a condição de continuar sempre em frente, porque não havia um motivo para ficar parado, não havia alguém cujo abraço pudesse confortar, e o material sempre me foi mais do que desnecessário. Minha ambição era uma, e inatingível, procurei por 'a woman who's never never never been born'. É, Plant. Eu ganhei. Eu a encontrei, e você não.

Busca


Quantas histórias estão
escondidas por detrás
deste par de olhos que tanto
encantam os tolos meus?
Este encanto fez o canto
que apazigua e me recolhe
em braços brancos e mornos,
que dos descasos tomou
a tal oportunidade
de, gentil, levar-me aos céus,
entre nuvens combustíveis
e o horizonte inatingível,
a alva musa de meu ser
espera por este beijo
fugitivo que a persegue.
Mal sabe o anjo destes outros
desesperados anseios
correndo em sua direção,
desejosos de seu corpo,
de sua sussurrada voz,
de seu calor inerente,
de sua mão angelical,
de sua trêmula volúpia
inaudível ao pobre homem...
E no silêncio dos gritos
de um homem mais que insano,
imploro por tua presença,
pelo adormecer da alma
minha no seio tão lindo
desta sua inexistência.

sábado, 10 de julho de 2010

Primeiras Impressões

A noite era cálida, solene. Muitos passavam à minha frente, aos meus lados e acredito que até atrás de mim, embora fosse difícil provar, mas nada fora do comum, nada extraordinário que pudesse lembrar remotamente meus arquétipos de felicidade. Sentei-me ao bar, com uma bebida na mão, e observei atento o vai e vem de pessoas através das portas. Meus olhos pesavam entediados quando novamente a porta se abriu, e naquele breve instante, pude ouvir cada murmúrio das gotas d’água que atingiam o chão, cada uma delas trazendo a sublime mensagem sobre a torrente avassaladora que me consumiria. O mundo encolheu, tornou-se mais simples, menos clássico ou erudito. Meu mundo adentrou a terra do sonhar, do ideal, do perfeito, do mais singelo equilíbrio. Seu corpo esguio, seus longos cabelos dourados, suas faces angelicais... Meu mundo colidiu com o de um serafim de asas partidas, que delicadamente chamava minha atenção. Mas quantas linhas mais poderiam durar aqueles milésimos de segundos referentes á minha jornada até o paraíso?
Meu anjo de asas espatifadas olhou-me direto nos olhos, e como se atravessasse minha alma, conheceu-me desde menino, e fez de mim um moleque. Apenas um mísero, ou talvez humilde, moleque cujas faces tingiram-se com a cor do sangue.
Por Deus, persigo aqueles olhos castanhos desde então, procurando a coragem para ser simplesmente verdadeiro.
“Com licença, não quero te assustar, mas... É que... Pela primeira vez eu tenho certeza disso...” O comum face ao absoluto é tímido.
“Simplesmente te amo.” – e me satisfaço neste mero ato de te amar.

domingo, 30 de maio de 2010

Por não ter o que dizer

Se aqui lhe escrevo versos
brancos como sua pele,
assim o faço apenas
por dois simples motivos:
porque a letra me poupa
da imprudência da fala
e por que meu fracasso
em furtar-lhe deve ser,
no mínimo, ritmado.
Mas não façamos disso
um motivo de alarde.
Por mais que eu assim deseje,
seu peito não saberá
a ínfima parte que for
sobre a rima escapada
ou este texto de meu amor.
Por não ter o que dizer,
esta simplicidade
se resume em minha fé
em você não ser triste,
sem propósito ou ambição,
como estas que aqui a cercam.
Procure em si este valor
que tanto me fascina,
que lhe fez minha musa,
que faz do colorido
de sua bela presença
luz no fúnebre escuro
desta minha cegueira.

domingo, 11 de abril de 2010

Perseguição celeste


Para encerrar o momento platônico:

Perseguição celesteNegrito

Se tais versos não fossem
caprichos de minha dor,
eles seriam sublimes
para todos que não vêem,
imaginam ou sentem
tal peso excruciante.
Será que minhas formas
são fétidas ou grotescas
a teus pequenos iguais,
impassíveis de meu amor?
Talvez seja você alta,
maravilhosa demais
para que se contente
em exaurir minha luz.
Foges desesperada
de meus gentis abraços...

Ou serei assim mais feliz,
por viver em sua busca,
sem jamais descobrir
que minha querida Lua
não passa de uma pedra
branca jogada nos céus?

sábado, 10 de abril de 2010

Mais

Platonismo...

Mais

De frente para as plantas
ela pousa, serena,
cálida e intrigante,
emana estranha aura
cuja luz e o perfume
absorvem-me num ato
estranho de inerente
dor, repleta do amor
mais incoerente que
sou capaz de conceber.
A dor forma-se pela
ausência de seu toque,
tão sublime quanto meu
prelúdio celestial,
obra na qual é você
a solista mais cara,
mais doce, mais perfeita,
mais minha do que jamais
seria sem estes sonhos...
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