terça-feira, 28 de agosto de 2012
Cangaço
Está frio. Congelo sob o Sol
de trinta e cinco graus.
Meu sorriso racha no ar seco,
sinto falta de sorrisos sadios
desperdiçados sem razão
e destes sonhos de criança
que nunca compartilharei.
Ainda estou aqui, depois destes
segundos que são como eras,
cantando músicas fúnebres
sob a chuva que nunca cai.
Ainda estou no meio deste mar,
mar de areia, concreto e isolação,
rezando para que o vento...
Para a remota chance de
que ele te carregue até
um pouco mais perto.
Rezando para que ele traga
minha alma de volta ao corpo.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Embrulho
Embrulhei seu sorriso numa folha,
não numa folha enfeitada,
mas numa folha singela e pacata,
numa sulfite velha e amassada.
Bagagem nas costas, sai à rua
com um embrulho no bolso do paletó
e a ambiguidade referente a troca
que aperta com desdém meu peito.
E o pacote amassava mais a cada vez
que o apresentava a prostitutas
e executivos que se proliferavam
no meu horizonte atormentado.
Cada vez menos desejável,
desejei o envelope para mim,
como nunca antes. Desejei-o
dentro de mim, parte de mim.
Constrangido, vaguei por alamedas
e ruas mil, de havaianas e pantufas,
sem abrir o envelope que me sela
entre o céu e o asfalto quente do inverno.
E enquanto o alcool de meu sangue
é inflamado pelo calor do chão,
uma folha amassada em branco
me mantém vivo, medíocre.
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Anil
Tenho um punhado de sonhos e minha eterna misantropia a combater. Alguns deles são toscos, pitorescos e infantis. Outros, são somente arquétipos de uma satisfação que nem mesmo sei se quero satisfazer. O grande problema, querida, é acordar todo dia e encarar post-its virtuais colorindo a janela e a parede do quarto com as notas de tudo que deveria ter sido feito - por mim.
Uma olhada rápida no espelho me faz perceber que sou perfeito, e um segundo a mais basta para esculpir olheiras fundas no mármore sujo de meu rosto, corroído pelo espírito em putrefação que mantém a estátua viva. Outro segundo desenha com esmero as linhas da idade que nunca vou ter, enquanto caricias infindas transformam minha superfície em pó.
Em vias congestionadas, entre o que poderia ser e o que jamais será, a realidade se constrói ao meu redor num piscar de olhos, estes que, cada vez que são fechados, retornam as imagens das obrigações de realizar sonhos. Meus sonhos são correntes que me prendem no cárcere de meu corpo. Minha vida é minha condicional. Alguém deve ser minha liberdade...
domingo, 22 de julho de 2012
Vergonha
Desconstruo o mundo com sorrisos
que há muito não são meus
e epitomizo seios e corações
em gestos de extinta satisfação.
Interpreto miados e latidos
discutindo com som de chuva,
converso com almas e paredes
cada momento acordado
para chegar enfim ao alívio
divino do adormecer.
Tão divino, quando durmo
padeço da observação inquieta
dos traços menos desejados
do meu mundo em implosão,
mas tudo é perdoado, pois
quando durmo sou abençoado
com o esquecimento
de meus sonhos e do mundo,
sou desconstruído entre a cegueira
e minha ambivalência virtual,
vomitada em linhas sem sentido.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Tons de negro
Uma olhada na porta do labirinto:
um passeio pela beira do abismo.
Um rio repleto de arrependimento,
um caminho que já não tem mais volta.
Um dia, umas horas, um almoço ou uma noite.
Pouca soberba esbanjando falta,
uma gana reprimida e afastada,
uma culpa por não fazer nada.
Umas frases um tanto randômicas,
um compasso tão descompassado.
Um exemplo bastante ruim,
e um final quase que inesperado.
sábado, 7 de julho de 2012
Redenção
Que é que encontra meus olhos
neste entardecer nublado
que os faz brilhar em frágil
e calmo contentamento?
Que toque é esse, que de etéreo
parece-me inexistente,
que de perfeito se faz
tão grotesco e tenro incômodo?
Quero libertar minha alma,
encontrar-me entre as correntes
de teu cheiro e teu sorriso,
no cárcere de teu olhar
apodrecer através
de anos e anos e anos e anos.
E onde foi que te escondeste?
Minha terna redenção
esticou suas pequenas
asas, soltando as penas
que acariciam meu rosto
com angelical cuidado,
e partiu, sem deixar rastros.
sábado, 23 de junho de 2012
Global
Entre trópicos e polos moribundos
escrevemos a saga épica do vazio
abissal que se fez entre cada um.
Neste palco perpétuo, enfeites distintos
dados por transeuntes e almas penadas,
que em seus papéis vendidos ao acaso
temem como a morte a própria existência,
penduram-se nos céus de carbono,
corroem corações e sorrisos de gelo
e desregulam o sistema de superlativos,
o mais infame de todos protagonistas.
Pois tudo que hoje é, é demais.
É grande demais, a proximidade
é grande demais, a distância
é grande demais, e tanta grandeza
é grande demais para não ser celebrada.
E celebramos, como celebramos,
enquanto os laços enfraquecem,
a apatia se torna a delineadora
capital das pessoas, celebramos
nosso mundo, nosso sistema, nosso dinheiro,
que é sempre próprio, de um. Meu.
Teu. E quanto mais comparilhamento,
menos dividimos. Quanto mais conexões,
menos pensamos. E quanto mais, menos.
Todos temos em comum duas coisas:
mais paliativos festejantes
e menos grandeza em cada alma.
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