domingo, 26 de maio de 2013

Eita que se foi sem querer

Eita que a porta fechou.
Mas fechou mesmo?
Olha lá, porta fechada,
vento barrado, cabeça suja:
vassoura e rodo desaparecidos.
Eita que fechou mesmo,
com tanto vento pra entrar,
tanto calor pra sair,
tanto pó para espalhar.
Fechou por dentro ou por fora?
Fechou sozinha, guri:
a porta da rua é serventia da casa,
e sabes que nunca mesmo
quiseste o contrário.
A porta da rua é serventia da casa...
E o que for pra longe da visão,
dona, vai ficar no coração?
Não, não vai. A porta fechou,
e com o espaço do batente
trouxe o sentimento que,
longe dos olhos,
o coração não sente.

domingo, 21 de abril de 2013

Polirritmia

Lavei minhas mãos, com cuidado,
e me deixei assistir as luzes,
vítimas deste sono holístico
que assombra o horizonte.
A última restou mais que deveria,
a última é a que foi esquecida.
De minha colina mais alta,
vejo o perfil dos prédios
tingir-se com luzes liquefeitas
de cores variadas, verdadeiras,
ilusórias e esperançosas,
também tristes pela mesmice.
Nesse padrão, feito de divindades
e betão, tudo era igual, sempre.
Até que um dia me disseram
que tudo era tão rápido,
que era eu o atônito,
que o mundo mudara
e já não restava paciência
nos dedos vorazes
a bolinar o interruptor.

domingo, 24 de março de 2013

Silêncio

Ei, você, filho do tumulto,
já ouviu falar do silêncio?
Para você não é aquele
absoluto e enlouquecedor,
não é o silêncio de ser
e estar imerso no vácuo.
Para você é a ausência
daquelas vozes que tanto
lhe perturbavam quando
reclamava de tudo
e vivia num Paraíso
feito de tijolos podres,
carinho e discussão.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Tudo foi falado


Sentei-me ao seu lado:
não tinha cheiro algum.
Assisti-a, cabelos
dançando enquanto comia,
olhos furtivos quando
falava, falava pouco...

Na minha frente,
sentava o poliglota.
Falava de Lyon e
falava de falar francês, e
falava de falar espanhol, e
falava e falava e falava...

"Eu só falo inglês..."
Disse minha bela, tímida.
"Eu mal entendo português."
Dividimos um sorriso,
sincero como poderia ser,
e guardamos a cumplicidade
para qualquer hora depois.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Gama


Guria, essa tua mão
delicada jamais tinha
de se apoiar em paredes
tão sujas, tão sujas, tão...
Esses teus braços esguios
deviam estar ao redor
de meu corpo e só meu corpo...
Diga que não adoras quando
me dás a mão e brinco com
teus dedos, dou leves tapas
em teu corpo que me aquece
as mãos, as pernas e o peito,
te enrubesces toda meiga
com meu suor sobre ti.

Menina, te quero tanto.
Quero que pares de olhar,
quero que perca-te em meu
colo e me deixe levar-te
novamente por caminhos
aqueles lindos e estranhos
que antes já cruzamos juntos.

Menina, sabes que minha
dedicação é limitada,
que meu corpo não te aguenta
como antes, mas mesmo assim,
meu desejo é te carregar
por todo lado, sujar-me
contigo, dançar contigo,
limpar teu corpo suado,
trocar tuas roupas sem cor,
dedilhar teus lindos braços,
perder-me completamente
em teus gritos e gemidos.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Saudades

Foi hoje que percebi:
em São Paulo, não há
dia nublado sem garoa,
marginal sem acidente,
sorriso sem depressão,
esta sem exposição,
sol frio sem nuvens,
árvores sem vida,
asfalto sem buracos,
um sem o outro.
Dia sem fúria,
noite sem medo,
eu sem saudades.